Cabo não se mixa pra coroné

Califórnia da Canção Nativa volta ao mapa encilhando um petiço


A última vez em que tinha visto o Cabo Déco havia sido na Cidade Baixa, na capital, declamando poemas campeiros num boteco. O uruguaianense tinha viajado mais de 600 quilômetros para confraternizar e expor sua veia poética ligada à contemporaneidade, junto ao grupo Erva Buena. Agora o revejo na terra natal, conquistando o troféu mais cobiçado do nativismo sul-rio-grandense.

O poeta já era amplamente conhecido no meio por seus versos e por sua ternura, que facilmente transborda em lágrimas. Com a conquista da Calhandra de Ouro neste ano, teve a consagração merecida. Por reconhecer sua arte desde os anos 90, nas borracheiras mais líricas do festival da Barranca, fiquei emocionado e esperançoso com este feito.

Neste momento, depois de retornar daquela lonjura, somados alguns dias meditativos, sinto necessidade de traduzir, a um público que extrapola o nativismo, o significado disto que está acontecendo e que nos leva à emoção. E nestas linhas os argumentos serão mais eficientes que os adjetivos.

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Na noite final do festival, enquanto preparava entrevista com um dos maiores especialistas em música gaúcha, o jornalista Juarez Fonseca, cedi meu caderninho de canções para que ele anotasse seus palpites. Tenho que revelar aqui que depois do resultado voltei à publicação e pasmo enxerguei um xis ao lado de cada uma das vencedoras. Juarez avaliava que não via nesta edição aquela velha tensão entre campeiros e urbanos, ou conservadores e universalistas, que tanto pautou polêmicas e brigas durante 40 anos de festivais pelo estado. Para o jornalista, tal dicotomia, ou “grenalização”, na música do Rio Grande do Sul só leva ao atraso. E o resultado veio ratificar sua observação, pois um mesmo artista venceu as duas linhas que costumam polarizar a controvérsia: campeira e livre.

Não tenho certeza se este é um feito inédito, mas muito significativo. Traduz o perfil desta nova geração de artistas nativistas, da qual o Cabo Déco faz parte, ao lado de Pirisca Grecco, outro que arrebatou seis troféus naquela noite de domingo, se consideradas as duas músicas que defendeu. Na lista de compositores da música Petiço Mapa-Mundi, grande vencedora da noite, revelam-se outros nomes: Pedro Ribas, Fernando Saldanha e Cesar Santos, que cantou e tocou violão ao lado do gaiteiro Guilherme Goulart, eleito melhor instrumentista.

Cabo Déco e Pirisca Grecco interpretam a vencedora da linha campeira, Don Alejo e seus mijados.

Don Alejo e seus mijados
A canção Don Alejo e Seus Mijados, melhor campeira, composta inteiramente por Cabo Déco, traz já no nome algo a ser observado e saudado. De acordo com o pesquisador Álvaro Santi, no livro Do Partenon à Califórnia, do ponto de vista formal as vencedoras do festival desde 1971 tem em comum a herança de payadores argentinos e do lirismo português. Assim como os estilos monárquico ibérico e as quadrinhas arcaicas. Quanto à temática, predomina a questão da natureza, da liberdade, o tom épico, em nome da exaltação das virtudes do gaúcho-herói. Ao contrário desta tradição que inventamos, Cabo Déco prefere a linguagem das gentes simples. As quadrinhas estão ali, de fato. Mas se percebem as diferenças logo no título, onde “Don” contrasta com “mijados”.

O idealizador da Califórnia, Colmar Duarte, falou naquele final de semana em entrevista à TVE, que o tradicionalismo fez nos sentirmos descendentes de heróis, importantes. Enquanto o nativismo nos fez sermos homens de nosso tempo, ligando a tradição à modernidade. E o sentido da perpetuação deste festival está justamente em proporcionar novidades.

Durante estes 40 anos de nativismo, o Rio Grande do Sul manteve uma posição de acentuar diferencias em relação aos outros regionalismos brasileiros. Ai de quem confundisse gaúcho com caipira, por exemplo. Agora notemos: o vocabulário de Don Alejo e Seus Mijados não é do português correto. Para o personagem, ovelha é “oveia”, baralho é “baraio”. E neste ponto aproxima-se muito de outros regionalismos brasileiros, do homem simples e mestiço, em contraposição ao tipo notável, nobre, montado a cavalo.
Guilherme Goulart, Cesar Santos e Cabo Déco, interpretam a grande vencedora, Petiço Mapa-Mundi. 
Petiço Mapa-Mundi
Já a canção do petiço que representa o mundo inteiro raspou boa parte dos troféus em Uruguaiana, incluindo a Calhandra de Ouro. Com compasso ímpar, 5/8, ficou difícil de enquadrar Petiço Mapa-Mundi no rol de ritmos “permitidos” pelo tradicionalismo. Este já seria um feito notável. Somado à interpretação de Cesar Santos, ligada à MPB, e a letra metafórica que alça o cavalo, nem tão nobre assim, pois petiço, ao universo sem fronteiras, tivemos uma campeã que representa a abertura da arte regional. Com boas e diversas influências, mas sem perder o tema e a ligação emotiva às raízes.

Podemos ficar felizes, sim, Juarez, pois esta turma vencedora não cultiva antigos ranços. Mas nas andanças por Uruguaiana “a calhandra me contou” que ainda há ventos e mãos tentando aprisioná-la em uma gaiola, o que seria seu fim como ser cantante e como espécie. Parece que segue o ímpeto de alguns pelo monopólio simbólico do festival e do gauchismo, tal qual o historiador Tau Golin advertiu nos anos 80.

Para estes, Cabo Déco chama-se Rafael Ovídio da Costa Gomes, nome de batismo do poeta perante o estado de direito. Também estão convictos que músico bom nunca erra. Ainda, artista não pode ganhar dinheiro para sustentar a família. E a Califórnia não serve só para que a arte siga seu ciclo criativo.

*este blogueiro viajou a Uruguaiana a serviço da Fundação Cultural Piratini.


Avenida Presidente Vargas, Uruguaiana RS.

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